Em 15/05/2020 às 12h00


Nos 26 anos do tri, Ricardo Rocha relembra campanha e bastidores da conquista

Por: Matheus Babo

São Januário, Rio de Janeiro

"O Vasco é tri! Tererê!" O dia 15 de maio de 1994 entrou para a história do Cruzmaltino. Naquele domingo, diante de 79.230 presentes no Maracanã, o Gigante da Colina venceu o Fluminense por 2 a 0, com dois gols de Jardel, e garantiu o único tricampeonato carioca de sua história. Para relembrar aquela conquista, o Site Oficial conversou com o capitão do time, o zagueiro Ricardo Rocha, que falou sobre as dificuldades vividas durante a competição, ressaltou a qualidade do jovem elenco formado por muitos garotos das categorias de base, as dificuldades após a morte do craque Dener e como o grupo reagiu.

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Caderno de Esportes do O Globo destacou Jardel, autor de dois gols no jogo decisivo (Foto: Acervo Digital O Globo)

- Foi uma conquista muito grande para todos nós. Foi muito difícil. E a maior dificuldade foi a morte do Dener. O time vinha muito bem e quando houve o falecimento do Dener, quase perto das finais, nós tivemos que reerguer. O grupo tinha muito garotos. Se pegar aquele elenco, tinham uns sete jogadores da base. Quem não era da base era eu, Alexandre Torres, Luisinho e o próprio Dener. Após a tragédia, o Jair Pereira, muito inteligente teve que se reinventar e formou uma nova dupla de ataque: Valdir e Jardel. Dois centroavantes. Esse tri foi muito legal principalmente para os jovens. Yan, Gian, Carlos Germano, Pimentel... jogadores com muita qualidade. Marcou muito a morte do Dener, abalou muito e tivemos que nos reinventar. Quando ele morreu eu estava na França com a Seleção, um amistoso contra o Paris Saint-Germain e quando voltei o vestiário estava devastador. Então nós, os mais experientes, tivemos que agir. Eu, Jair Pereira, o próprio Eurico Miranda, conversamos muito com esses garotos e fortaleceu a união com o grupo - recorda Ricardo, que também foi campeão do mundo com a Seleção Brasileira em 94 e não esconde o carinho pelo Cruzmaltino:


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Ricardo Rocha era o capitão do time tricampeão carioca (Foto: Reprodução Twitter)

- Quando saí do Santa Cruz, fui pro Guarani. Recebi uma ligação sabendo do interesse do Vasco, mas não tinha como eu sair. É uma coisa que já era para ter acontecido antes, mas o Guarani chegou na frente. A torcida do Vasco é espetacular. Há quase um ano, fiz uma viagem para o Norte-Nordeste. Belém do Pará, fui descendo, a trabalho e passei por uns cinco, seis estados. É impressionante como a torcida do Vasco é enorme. Esse carinho do torcedor vascaíno eu só tenho que agradecer, mandar um beijo, um abraço no coração e dizer que esse tricampeonato é único, veio com muita luta, garra, sofrimento por conta da perda do Dener e eu marco muito porque fui campeão do mundo em 94 com a Seleção Brasileira e o Vasco também teve o Bellini em 58. Essas coincidências são muito legais e só tenho que agradecer. 

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Dener em ação pela última vez com a camisa do Vasco (Foto: Tassio Marcelo/Agência Estado)

A campanha do Vasco naquele Carioca foi excelente. Foram 18 jogos, com 12 vitórias, cinco empates e apenas uma derrota. O revés veio no quadrangular final, justamente no primeiro jogo após o acidente de carro que culminou no falecimento de Dener. Ricardo Rocha ressalta que naquele momento, os mais experientes e a direção de futebol assumiram a responsabilidade e, na base da conversa, conseguiram fazer com que os mais jovens superassem o trauma: 

- Foi muito difícil perder o Dener. Foi duro. A equipe foi se reconstruindo no dia a dia. O time estava muito bem encaixado. Isso influenciou. A queda de produção foi normal. É uma pancada muito forte e principalmente no nosso grupo, de jovens jogadores. Ele era adorado. O sentimento de perda foi muito forte por parte de todos. Fizemos reuniões, conversamos bastante. Eu, Eurico, Alexandre Torres, Luisinho, os supervisores, Dante Rocha foi fundamental com a sua experiência, o Isaías Tinoco. Todos foram muito importantes pra fazer esse trabalho em relação a cabeça dos garotos. 

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Jogadores dedicaram o título para Dener (Foto: Acervo Digital O Globo)

BATE-BOLA
Ricardo Rocha, capitão do tricampeonato carioca em 1994

1. O Vasco só sofreu dez gols em 18 jogos naquele Carioca. A dupla que você formou com o Alexandre Torres fez muito sucesso e deixou saudades no clube. Era fácil jogar naquele time?

Em relação a termos sofrido poucos gols, era o sistema defensivo. Tínhamos dois volantes, Luisinho e Leandro Ávila, marcavam muito. Dois volantes que sabiam jogar e eram fortes na marcação. William na criação. Dois laterais muito bons, Cássio e Pimentel, um baita goleiro, que era o Germano. Eu e o Torres ali atrás. Nossa defesa era muito forte. Eu sempre falo, o Torres foi um dos melhores zagueiros que joguei junto. Tive essa felicidade de atuar no Vasco não só com ele, mas com toda essa garotada que citei e ter a sorte de contar com um treinador inteligente que era o Jair Pereira. 

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Ricardo não esconde o carinho pelo Vasco (Foto: Reprodução Twitter)

2. O quadrangular final foi entre os quatro grandes e os rivais tinham grandes atacantes naquela época (Túlio no Botafogo, Sávio no Flamengo e Ézio no Fluminense). Mesmo assim, o Vasco foi superior e conseguiu o título. Como era jogar contra tantos bons jogadores numa época de ouro do futebol carioca?

Eram bons atacantes. Jogadores inteligentes. O Túlio era um jogador de área, o Sávio tinha mais velocidade e jogava mais pela beira de campo. O Ézio também era mais de área. Eram jogadores que a gente tinha que ter uma atenção enorme. Normalmente o Sávio era mais marcado pelo Pimentel e a gente cobria nas bolas longas. O resto era mais dentro da área mesmo. O Ézio saía um pouco, o Túlio já dava trabalho lá dentro. Era uma época de ouro do futebol carioca, todos os clubes tinham jogadores de qualidade e que marcavam gols. A atenção era redobrada.

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Ricardo Rocha durante um dos clássicos contra o Fluminense (Foto: Reprodução Twitter)

3. Sua passagem pelo Vasco durou apenas duas temporadas, mas a torcida se recorda e fala bem de você até hoje, o coloca em algumas escalações de time dos sonhos. Como é receber esse carinho até hoje? 

Fico muito feliz com o carinho da torcida do Vasco. Eu amo a torcida vascaína, sempre falei isso e não é demagogia. Eu sinto um carinho quando viajo pelo Brasil e principalmente no Rio de Janeiro. É marcante. É o único tri carioca da história do Vasco. Eu era o capitão. Poderia ter ficado mais tempo, mas faz parte da vida. Sempre falei. Aqui no Rio eu sou Vasco. É o clube que eu joguei mais. E tem outra coisa. O Vasco dá muita sorte com jogador nordestino. Se pegar no início tem Ramon lá atrás, eu, Zé do Carmo, Juninho Pernambucano... o Vasco tem esse carinho e principalmente com os jogadores pernambucanos que jogaram por lá. O torcedor entende muito bem tudo isso. Sempre que o clube traz jogadores nordestinos, lá de Pernambuco, normalmente eles fazem sucesso. Tenho esse reconhecimento no dia a dia. 

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