Em 29/02/2016 às 15h35


Mitos e Romances do futebol: o centenário de Bernardo Gandulla

Gandula [...] O mesmo que gandulo.

Gandulo [...] Garoto. Vadio. Tratante [...] (FIGUEIREDO, 2010 [1913], p. 936).

  

O futebol se apresenta como um dos campos mais favoráveis ao surgimento de mitos e para a "romancialização" de fatos históricos. Nessa direção caminhou a terminologia carioca e brasileira quanto à nomeação dos indivíduos que ficam à beira do gramado nos dias de jogos auxiliando a entrega e a devolução de bolas, os famosos gandulas. No cenário esportivo brasileiro construiu-se a idéia de que o termo surgiu através de um ex-jogador do Club de Regatas Vasco da Gama: Bernardo Gandulla. Nesse 1º de março de 2016, Gandulla completaria 100 anos. Assim, como forma de homenagear tanto a passagem do jogador pelo Clube quanto a essa folclórica página da história vascaína, iremos tratar do surgimento do "gandula".  

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Bernardo Gandulla

Data de nascimento: 1º de março de 1916 (Buenos Aires, Argentina)

Data de falecimento: 07 de julho de 1999 (Buenos Aires, Argentina)

De acordo com o mito construído, ao menos em uma das facetas, Gandulla ficaria sempre na reserva e para demonstrar a sua qualidade técnica corria para buscar as bolas que saíam e as repunha em jogo com destreza. Contudo, para surpresa de muitos, a referida expressão era antecessora à vinda do referido jogador para o Vasco e de uso comum no futebol da então Capital Federal. A palavra "gandula" é o feminino de "gandulo", que significava "garoto", "vadio" ou "tratante". No contexto da sociedade carioca do início do século XX, o termo poderia ser utilizado de múltiplas maneiras. Por exemplo, como meio de se referir a pessoas de mau caráter (Correio da Manhã, 1906, p. 02) ou a fatos insignificantes:

Em poucos minutos aquelle trecho de rua ficou, tal como uma praça de guerra. Não havia motivo para tanto. Era um caso "gandula", vagabundo, sem nenhuma importância. Uma luta entre dois homens, que ficou resolvido atoinha... (A Rua, 03 de maio de 1927, p. 6)

            Ainda poderia fazer referência a materiais doados pelo estado aos militares e que depois eram vendidos:

Uma gandula quer dizer, na gíria de quartel, um objecto entregue á praça [...] – calça, botinas ou blusa, de que elle se desfaz, para apurar dinheiro (Correio da Manhã, 14 de outubro de 1909, p. 4).

 

            No campo esportivo carioca, desde as primeiras décadas, o termo "gandula" era utilizado para se referir aos jovens ("garotos") que ficavam à beira do gramado ajudando a repor as bolas para o jogo:

Sujeitava-me então á condição de "gandula". Nem todos sabem o que significa a palavra "gandula". Cabe, pois sobre ella, uma ligeira explicação: "gandula" é aquelle garoto que fica atraz do goal, para devolver a bola, quando for atirada fóra do campo, por algum "errado"... (Diario da Noite, 05 de agosto de 1933).

 

            Nesse sentido, se a expressão "gandula" já existia e era aplicada como gíria do futebol carioca, servindo de apelido e nome de clube, muito antes do jogador argentino Gandulla vir para o Vasco, como construiu-se o "mito Gandulla"?

Expliquemos...

No ano de 1939, o Vasco caminhava para completar três anos sem conquistar o título de "Campeão da Cidade" (Campeão Carioca), jejum que seria findado em 1945, através do "Expresso da Vitória". O clube já possuía São Januário, era uma das maiores instituições esportivas do país e contava com uma grande massa de torcedores e sócios que pressionavam os diretores do Gigante da Colina para melhores resultados. Adotando uma política de contratação de jogadores estrangeiros, os dirigentes vascaínos, encabeçados pelo presidente Pedro Novaes, trouxeram vários atletas uruguaios e argentinos para constituírem a equipe. É nesse cenário que Gandulla aparecer para fazer parte da história do futebol vascaíno e brasileiro.

Por ocasião da Copa Roca de 1939, Gandulla esteve na cidade do Rio de Janeiro fazendo parte da delegação argentina. Embora não tenha atuado na referida competição, pois, era reserva de Moreno, treinou em São Januário e despertou o interesse dos dirigentes vascaínos. Retornado para a Argentina, Gandulla casou-se em 27 de fevereiro de 1939 (A Noite, 28 de fevereiro de 1939, p. 17). Estando apalavrado com o Vasco, logo após contrair matrimônio, embarcou para o Brasil a bordo do vapor "Conte Grande", junto de outros atletas platinos e do técnico uruguaio Carlos Scarone:

BUENOS AIRES, 28 (U.P.)

Seguiram para o Rio de Janeiro, a bordo do "Conte Grande", os footballers Dacunto, Gandulla, Emeal, Aguinelli e Della Torre.

Em Montevidéu, embarcarão Villadonica e Carlos Scarone. Este ultimo actuará como technico do Vasco da Gama (1º de março de 1939, p.7).

 

A onerosa "embaixada platina" do Vasco despertou a atenção e gerou bastante desconfiança nos torcedores e na imprensa.

REFORÇO ARGENTINO PARA O VASCO DA GAMA

Mais tres elementos argentinos vêm de ingressar no Club de Regatas Vasco da Gama. Trata-se dos discutidos players Gandula, Emeal e Dacunto.

Para adquirir esses novos elementos gastou o club cruzmaltino cerca de cem contos de reis. Desse modo será o quadro da camisa preta composto de vários elementos estrangeiros. (Gazeta de Noticias, 08 de março de 1939, p. 14).

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O Sr. Pedro Novaes, Presidente do Vasco, ao lado de Gandulla, quando da assinatura do contrato

A Noite, Rio de Janeiro, 07 de março de 1939, p. 8

Para que se tenha uma noção da entrada de jogadores estrangeiros no Gigante da Colina, ao menos nove atletas de fora do país passaram pelo clube no ano de 1939, além dos técnicos uruguaios Carlos Scarone e Ramon Platero (campeão com o Vasco em 1923 e 1924). Foram eles: Agnelli (ARG), Calocero (ARG), Dacunto (ARG), Emeal (ARG), Figliola (URU), Gandulla (ARG), Menutti (ARG), Servetti (URU) e Villadonica (URU).

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Noite, Rio de Janeiro, 07 de março de 1939, p. 24

Entretanto, foram as contratações de Bernardo Gandulla, Raul Emeal e José Dacunto, jogadores do Ferrocarril del Oeste/ARG, que movimentaram o futebol carioca. A vinda desses três atletas ficou marcada por um conflito entre o Vasco e o Ferrocarril/ARG. O clube argentino alegou que, por não ter dado o "passe" aos jogadores, eles não poderiam atuar pelo Vasco. Por sua vez, o Gigante da Colina contava com o fato de que esses atletas estrangeiros já tinham os seus contratos vencidos e, portanto, estariam livres para atuarem em qualquer clube. A polêmica se alastrou, envolvendo a imprensa dos dois países, as respectivas entidades nacionais (CBD e AFA) e a própria FIFA. Após meses de disputas fora dos gramados, o que incluiu o campo judiciário dos países envolvidos, os jogadores tiveram as suas situações definitivamente regularizadas e os "passes" custaram mais de 126 mil contos de réis aos cofres vascaínos, uma verdadeira fortuna à época. Os "vascaínos-argentinos" ficariam o ano de 1939 em São Januário.

A despeito da solução extracampo, Gandulla, e também Emeal, eram constantemente escalados. A estreia de Gandulla foi em 23 de abril, diante da equipe do Fluminense. No decorrer do ano, após essa data, o Vasco jogou outras 30 vezes. O jogador argentino jogou nada menos que 29 partidas, atuando como titular da equipe vascaína em quase todas. Nestes 29 jogos, totalizou-se 10 vitórias, 8 empates e 11 derrotas, Gandulla anotou 10 gols.

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O Globo Esportivo, Rio de Janeiro, 11 de novembro de 1939, p. 5

Clique aqui e confira a tabela de jogos disputados por Gandulla.


Em questão de números, a passagem de Gandulla foi regular e suas participações eram inconstantes, sendo destaque em alguns jogos e tendo a sua técnica ressaltada. Mas, se levarmos em conta o esforço para a contratação deste e dos outros dois jogadores argentinos, os resultados foram extremamente abaixo do esperado pelos vascaínos.

O "estardalhaço" da imprensa com a vinda dos estrangeiros, especialmente de Gandulla, que foi catapultado pelos conflitos institucionais na disputa do "passe" dos atletas, contribuiu para que o nome jogador servisse de anedota, ora como "munição" para as críticas da imprensa e ora como elogios. Ao fim e ao cabo possibilitou-se a "romancialização" de um termo já preexistente e o surgimento de um mito. Na citação abaixo, o cronista faz referência ao jogo Vasco 5x 1 América (29/10/1939), em que Gandulla atuou bem e marcou dois gols:

 

Cuidado, pois, snrs. botafoguenses e rubro-negros, a "ala léro-léro" não é apenas uma miragem...

Os Gandullas sabem fazer goals. E que goals [...] (Sport Illustrado, Rio de Janeiro, 09 de novembro de 1939, p. 3).

 

 

No ano seguinte, Gandulla saiu do Vasco para o Boca Juniors, equipe que disputou o "passe" do jogador durante boa parte de 1939. Antes do início do campeonato de 1940, a Liga de Futebol do Rio de Janeiro deliberou sugerindo que os clubes tomassem providência para que os "gandulas" fossem implantados:

 

Oficialização dos "gandulas" e medidas para melhorar o padrão do futebol brasileiro

Diante do que ficou resolvido na reunião dos técnicos, o senhor João Teixeira de Carvalho, assistente da Liga de Futebol, tomou as seguintes deliberações as quais entrarão logo em vigor:

[...]

f) – Que se sugira aos clubes filiados, para maior rapidez do jogo, a conveniencia de destacarem, como no tenis, garotos para apanharem as bolas nos fundos dos campos (Diario de Noticias, Rio de Janeiro, 25 de maio de 1940, p. 12).

 

O Rio de Janeiro era a capital do Brasil, os fatos que ocorriam na cidade ecoavam para todo o país. Assim, sendo o Vasco um dos maiores clubes nacionais, suas ações eram notadas pelas demais regiões brasileiras. De certa forma, a "oficialização dos gandulas" acabou influenciando para que surgisse o "mito Gandulla", baseado no jogador vascaíno que tanto "deu o que falar", mesmo que se soubesse à época que o jogador argentino não foi o motivo para a nomeação dos auxiliares de reposição de bola no Rio de Janeiro:

 

"A Gazeta", de São Paulo, publicou: "Os Gandulas" – A Liga Carioca pretende oficializar os "gandulas". São os meninos que, na Europa, ficam atrás das metas para apanhar a bola e que aqui tambem foram colocados no Estadio do Pacaembú, quando do "Toneio Relâmpago". A denominação de "gandula" nasceu das atitudes do jogador argentino do mesmo nome, cuja passagem, pelo Vasco, se tornou notoria por ir apanhar todas as bolas que saiam e, pondo o couro debaixo dos braços, dirigia-se ao árbitro para reclamar qualquer coisa, com ou sem motivo...Esses cariocas..." O confrade paulista está equivocado. O termo "gandula" tem mais de 20 anos de uso no Rio e não foi sugerido por nenhum jogador desse nome. Naturalmente, o colega pretendeu romancear... Sem a menor idéia de imitar os europeus, os cariocas se utilizavam dos "gandulas", principalmente nos campos antigos, quando eram circundados por muros baixos, para terem de volta a bola, sem grande perda de tempo, sempre que alcançava a rua. Ignoro como nasceu a palavra "grandula", mas posso garantir não ser exata a origem assinalada pelo citado jornal. Alem disso, o jogador Gandula não se tornou conhecido pela atitude que lhe foi atribuida [...] (Diario de Noticias, 30 de maio de 1940, p. 12).

 

 

Se não foi através do Vasco que o termo surgiu, foi através deste que ele se nacionalizou. Com o passar do tempo, a expressão "gandula" ultrapassou os limites da cidade do Rio de Janeiro e foi adotado por todo país na esteira da popularidade do Vasco. Hoje, 77 anos após a vinda de Gandulla para o Clube, o jogador é lembrado como aquele que "batizou" os ajudantes de reposição de bola nos jogos. No futebol, a verdade histórica e o mito se confundem, se misturam, e formam a riqueza cultural desse esporte que tanto amamos.

 

 

 

Fontes

a)      Dicionário

FIGUEIREDO, Cândido. Novo Diccionário da Língua Portuguesa. Portugal: Gutemberg Ebook, 2010 [1913]. Disponível em:

. Acessado em: 25 mar 2015.

 

b)      Jornais e Revistas

 

A Noite;

A Rua;

Correio da Manhã;

Diariode Noticias;

Gazeta de Noticias;

Jornal do Brasil;

O Imparcial;

O Paiz;

Sport Illustrado;

 

Texto: Walmer Peres Santana (Historiador)

Centro de Memória do Club de Regatas Vasco da Gama

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